Sunday, November 12, 2006

no silêncio que habita o aqueduto do mundo
estuamos as mãos e a língua
e uns bêbados com Deus.
.será a ferida uma harpa nua.
as roseiras são colunas ferozes
e sangrentas e curvam e ocupam.
e um poema contínuo seja boca dos ventos.quero entrar em raiz e saltar aos bebedouros
e obedecer ao líquenes
e ser pedagoga dos rios dos perfumes terríveis e dos animais enormes.
eu sou um vidro moído a dobrar ao estio diamantes.
e uma oficina de barro forte e o casulo das veias.
e o meu nome uma trompa e uma ribeira onde se banham mulheres
e um umbigo em fôlego.

nery

Saturday, July 29, 2006

e... Cláudia Borges

Nos tectos negros
onde as ancas das trevas
seduzem escarpas do dia
onde as sombras cosem a escuridão
onde os gritos adiados
da dor se espancam no nada

nesse lugar quieto
onde as pétalas da dor
sugam os caules enxutos da Terra
onde as palavras repousam
no hálito das profundidades

onde as raízes das montanhas
se entranham delicadamente
vigiando a intimidade do crepúsculo

nas grutas amordaçadas
onde o respirar não tem corpo
nas brechas onde os astros nascem
onde o silêncio esfola molda
o alimento da noite

nos ventres assombrados
onde as lágrimas semeiam o fogo
onde o sono pálido regressa
nas ramagens de cada instante

in Instinto, Cláudia Borges

Friday, July 28, 2006

"Sinto-me como se tivesse cegado por excesso de olhar o mundo"
in O medo, Al Berto

às vezes fica-me apenas o corpo como se fosse um casulo.a eternidade é um monólogo amarelecido e mil barcos por ocupar.

cristina nery

Sunday, July 23, 2006

O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo

in Poesia, Daniel Faria

Monday, June 19, 2006

às vezes há focinhos que me preparam a noite
e não sei se continuarei viva.
às vezes a casa tem tantos cantos
que a minha silhueta é salgada
e tenho navios na ponta dos dedos.
o travo que me acaricia tem um infinito
e as minhas pálpebras são as conchas da harmonia do meu corpo
sempre que as encontro.

um tornado traz as sementes das borboletas que duram pouco
entre as vértebras entre o pólen da terra, pernoito
a rodear os nervos do meu peito crucificada
e se eu conseguisse esboçar o vento
seria de precipícios diariamente
e do mortal brilho do meio-dia.



queria destruir um texto com flechas acesas completamente nas mãos
e morrer assim de Verão
em azulejos brancos numa gruta
e o meu cérebro a pique
rotativo e poderoso
como a energia da lua
e agarrar pérolas no coração.

há um sítio astrológico
de cavernas corais
e cristais extensos
que sai do corpo. os mortos levam-me neles
porque tenho arrozais de flores brancas
que me cercam a respiração.

os lençóis onde irei cair são molhados a prata
e a candeias dos palácios.

cristina nery

Sunday, May 28, 2006

.nas sucessivas camadas rentes ao peito
há o bailado do vento
e
para cada eco
o rosto dos duendes esperneando são um olho de tigre.
descer às fontes sedutoras das mãos
a minha esfera de dentes nus
e florestas doiradas.
dança um corpo de gigante
nos versos de um imaginado poema
enruga nas montanhas.
seja o monstro
ruir da lua a que pertenço
de olhos secos visto os cânticos

dai-me a hora da linfa
que as janelas são prateadas e fazem Primaveras
e um palco
que a noite está próxima.

serei uma viagem
porque o vento é de febres e de fadas.

em todas as fantasias há um deserto
em que as lobas gemem selvagens
e cabeças subtraídas às estrelas.tenho uma auréola nos pulsos
e a morte assobia-me todas as vezes
que olho as paredes silábica e engulo.

um eclipse traz os miradouros perpétuos
e todos os estuários mais altos do mundo.
o vento que preso me traz os polígonos à beira dos lábios
porque à beira dos lábios
há um corvo e um ciclo
e caravelas negras.eu sou um átrio onde tantas víboras abraço.
o vento as tochas
e os vocábulos iluminados e o solo das grutas e as vestes.


queria alimentar-me do sal das pedras estas
e multiplicar os pomares
para regressar ao martírio de mim própria
e de alma branca navegar os cristais.
sei bordar as borboletas se o meu rosto até morrer fechado
.o vento estoira-me o estômago de segredos e jóias pretas.


Cristina Néry

Monday, May 15, 2006

.uma cozinha de pássaros e Inverno
e o monte aberto sangrando uvas.
e a madrugada
e horta
tenho as palavras deformadas e harmónicas
se me dormem dentaduras mentais.
os cardeais sejam uma prata em espiral
que me morrem os canais negros
e tenho uma canção para dois mundos.

a terra morreu povoada cem vezes.e alegrou-se de um tamanho fogo amarelo.
quero uma parada de ciganos que vertem flores no tempo da melancolia
e um dia de chuva para me cantar e espalhar vermelha
que eu quero reinar sobre a aurora e dançar a beleza de todas as cobras.
vem o vento vem
mastigar-me o espírito até fumegar
que eu fui a primeira a aparecer em princesa.
quero
uma mansão
para uso dos pássaros
e um poema contínuo como a boca dos ventos.
quero entrar em raiz
e saltar aos bebedouros
e obedecer ao líquenes
e ser pedagoga dos rios.

eu sei,
dos perfumes terríveis
e dos animais enormes. vejo-os nas florestas enormes
que dobram arco-íris
e caçam ao estio diamantes.
e olhos bebessem transparentes
e bárbaras as veias da garganta
um planeta ou a fruta descascada na mesa.
encharcar e a carne queimadas
e o medo uma luva subitamente negra.
sempre que a mim regresso
Deus deita-se a crescer casulos e fabrica a escrita até ao fundo dos espelhos
e beija-me as ancas
e sou uma oficina de barro forte.ou o nó da sua paixão.

cristina nery